sábado, 6 de julho de 2019


Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vivente: fim da sociedade escravocrata e início do Cabo Verde moderno  (Janeiro de 2014)


                                          (Das vicissitudes do passado ao Cabo Verde moderno

A Inglaterra redescobriu portanto Cabo Verde e achou S. Vicente no início do século XIX, construiu Mindelo no momento em que Cabo Verde e Portugal entravam numa encruzilhada histórica, e em que era necessário redefinir uma vocação e um novo conceito estratégico para o arquipélago. Toda a história de Cabo Verde mudou a partir de 1838 quando a companhia inglesa East India implantou-se em S. Vicente, ou melhor, quando a Royal Mail Steam Packet iniciou a instalação de depósitos de carvão para o abastecimento da navegação que ali passa com destino ao Atlântico Sul, a partir de 1850 (3,4,5,6). Com a criação de um ponto de fixação do império britânico em S. Vicente e no meio do Atlântico, a Inglaterra conquistou um ponto estratégico para as comunicações e o serviço ultramarinos, Cabo Verde voltou à luz da ribalta, ganhando uma importância geoestratégica perdida, pelo efeito induzido pela própria presença da principal potência mundial. Este evento teve um impacto socio-económico revolucionário no arquipélago, marcou a ruptura com a antiga sociedade, estruturalmente tradicional, rural, que ainda vigorava nas ilhas mais povoadas, em especial Santiago. Nelas, as relações económicas semi-feudais e uma hierarquia estritamente rácica baseada na cor da pele decorrentes da história escravocrata era a característica principal. Cabo Verde feudal foi assim bruscamente catapultado para a modernidade pelo simples jogo da presença inglesa, pelo importante movimento de populações interno provocado pela ‘industrialização’ de S. Vicente e a eclosão de novas relações de produção no arquipélago. Foi assim um acto libertador, de ruptura com o passado. Marcou o fim inexorável de uma época muito marcada pela ilha de Santiago, e o início da sua progressiva marginalização e esquecimento. Nascia um novo Cabo Verde e consagrava-se a nova estrela do arquipélago, a nova ‘capital’ Mindelo (razão porque a Metrópole tentou transferir, em vão, para S. Vicente a capital de Cabo Verde para dar um novo ímpeto socio-económico à colónia (5,6)). Mindelo era cidade livre das teias do passado, cosmopolita, aberta ao mundo, centro intelectual, cultural e económica do país.
A presença inglesa em S. Vicente tornou-o um ponto de passagem obrigatória entre a Europa e a África, e uma porta de entrada para o Mundo para os cabo-verdianos. A cidade do Mindelo constituiu o ponto de fractura e de conflito entre o Cabo Verde colonial e o pós-colonial, entre o passado e o futuro, o mundo rural e o urbano, o progresso e a conservação, o moderno e a tradição, e passou a ser o rosto do conformismo, da irreverência e da contestação. Doravante Cabo Verde passou a estar dividido em dois mundos: o urbano, laico, operário, liberal progressista, centrado na ilha de S. Vicente, e o Cabo Verde profundo, rural, retrógrado, conservador, profundamente, católico, localizado das restantes ilhas do arquipélago. Quanto maior era a situação de interioridade de uma ilha pior era o caso, situação que até hoje perdura.
Um novo Mundo abria-se assim em S. Vicente aos cabo-verdianos, o Eldorado ou Terra Prometida, o sonho cabo-verdiano.
 Vão confluir para a ilha milhares de crioulos de todos os estratos sociais e de todos os pontos do arquipélago (5), que irão formar os germes desta nova sociedade cabo-verdiana liberta dos grilhões e das sequelas do passado, formando os germes da futura nação crioula que um dia poderia nascer.
Juntam-se nesta aventura emigrantes de vários pontos do mundo, alguns judeus, portugueses, ingleses, italianos, alemães, indianos, árabes. S. Vicente nasce, assim, ilha mundializada, liberal, nobre, ecléctica, cosmopolita, onde floresceram múltiplas actividades liberais. Nela os cabo-verdianos adoptarão um estilo de vida citadino, matizado por valores europeus, nomeadamente portugueses e ingleses. O impacto destas transformações constitui uma autêntica revolução em Cabo Verde. A alavancagem para um Cabo Verde moderno e contemporâneo deu-se portanto a partir de S. Vicente.
Estavam assim postas em causa as bases ideológicas e sociais sobre as quais assentava a tradicional sociedade escravocrata ancorada em Santiago, e um novo conceito de Cabo-Verde estava a nascer onde poderiam conviver todas as raças, brancos, pretos, amarelos e mestiços, independentemente da condição socio-económica.
Estavam criadas as condições para que os próprios cabo-verdianos impulsionados pela dinâmica e a ousadia mindelenses, revigorada na revolução do 25 de Abril de 1974 e na nova ordem mundial nascente, redescobrissem Cabo Verde e ousassem contra todos as probabilidades desafiar o destino e sonhar um país. Uma nova e extraordinária aventura, mas com riscos e lágrimas para a S. Vicente e a sua população (mas não para uma certa elite frívola mindelense que se mudou com armas e bagagens para o novo eldorado), iria recomeçar em Cabo Verde. A Ilha apostou, jogou dignamente o seu papel, colocou todas as cartas na mesa, mas perdeu no fim. Uma revolução social e política que aí tinha começado foi mais uma vez subvertida e só podia tê-la sido por razões que veremos. Tornou-se aos olhos da sua própria elite, paradoxalmente e ironicamente num envergonhado problema pós-colonial, artificialmente re-inventado para a nova ideologia, quando por ironia do destino mudaram-se os tempos e as vontades em seu desfavor. Este artigo que aqui termina é pois o pano de fundo para novo e próximo:

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