quinta-feira, 7 de março de 2013


AINDA A PROPÓSITO “DO DIÁLOGO E DA ÉTICA”

 

Há gente que me lê e descobre ideias e propósitos que nunca me passaram pela cabeça, pelo que é lícito presumir que o fazem às avessas, na diagonal, ou, seguramente, que estacam à primeira topada nalguma pedra ideológica que contrarie os interesses dos seus mandantes ou a circunferência das suas barrigas, o que os obriga a lançar mão de pena viciosa, mas de cara tapada. Intrigante esse tipo de reacção, dado que procuro sempre ser claro, transparente, objectivo, evitando linguagem burilada de efeito hiperbólico a esconder desígnios obscuros.

Esses meus leitores não querem mesmo saber da regionalização, fugindo dela como o Diabo da cruz, e entendo-os muito bem: não lhes convém, prejudica-os no gosto que têm por todas as luxúrias. É gente com ânimto social a marcar temperaturas muito baixas. Perderam o sentimento de pertença a uma sociedade de cidadãos com interesses, direitos e obrigações comuns. Não é que não consigam pensar como eu, não; obviamente, que conseguem, se fizessem algum esforço para não se concentrarem somente sobre os seus interesses pessoais, ou nos do partido a que pertencem, servem e se servem – pertencem ao sistema partidário, ou a fazer o tirocínio para tal -, por prezarem mais os do partido do que os legítimos dos cidadãos que elegeram o seu partido para governar de acordo com o que prometeu, em benefício da comunidade, antes de trepar ao poleiro do poder, que a sabura deste fez relegar para as calendas gregas.

Eu e alguns elementos do Movimento para a Regionalização de Cabo Verde não somos da mesma cor política, mas batemo-nos em conjunto, superando eventuais diferenças ideológicas, para obter um espaço político cabo-verdiano onde seja possível exprimir os nossos pensamentos e propostas, o que não me parece heresia em política por ser elemento de participação democrática. E essa superação é possível por pensarmos que viver em democracia é dirigir-se à inteligência dos indivíduos e não aos seus instintos, associando-os a um projecto emancipador; tentamos dar, na modéstia das nossas capacidades, outra escolha aos cidadãos, em vez de menu monocórdico fastidioso.

Embora não me interesse a prática da política nos moldes em que se realiza nos nossos dias, sei que em política, a incapacidade de produzir respostas adequadas pode redundar em perda de direitos adquiridos. A inacção política, secundária à miopia e surdez a propostas e sugestões de gente idónea e experiente, conduz sempre a regressões demasiado importantes e faz-nos perder aquilo que é mais valioso para nós. Seria mesmo escandaloso perdermos os progressos duramente conseguidos com sacrifícios dos cidadãos na pós-independência, devido à nossa desatenção, indulgência ou autismo.

Uma sociedade aberta e multicultural - como a nossa - é uma fonte inesgotável de descobertas, quando se sabe escutá-la e observar com olhos de ver. Deveria libertar-nos da arrogância, da crença de que os nossos modos de vida e de pensar são necessariamente os melhores, ou até mesmo os únicos. A variedade multicultural é para a sociedade aquilo que a variedade biológica (biodiversidade) é para a vida na Terra. Mas isso não significa que sejamos indulgentes em relação a certas práticas supostamente culturais. E, seguramente, não em relação àquelas que, por oportunismo político, populismo, por razões ideológicas etnonacionalistas e fundamentalista não respeitam o bom senso, os princípios fundamentais, nem a democracia.

A posição de delírio nacionalista de alguns dos nossos intelectuais é, de facto, o sintoma da sua inadaptação ao mundo multicultural. O nacionalismo integrista alimenta-se, afinal, de lendas e não da História. Foi, por exemplo, o pai espiritual da chamada “Reconquista”, que estudámos no liceu e que acabou por expulsar os árabes de Granada (os muçulmanos mais tolerantes que coabitaram harmónica e pacificamente, durante séculos, com cristãos e judeus), bem como oitocentos mil judeus (aqueles que deram a conhecer a civilizações grega e romana ao mundo e grande contributo científico para o início das Descobertas) da Península Ibérica como se fossem cães vadios.

Afinal de contas – já me ia desviando do motivo destas linhas -, com a regionalização, quase transformada em reola por gente mal-intencionada e de maus bofes, cujo estudo propusemos ao Governo, passaríamos a falar, como estamos convencidos e o estudo poderá confirmar, ou até – o que não acreditamos -, rejeitar, de um Cabo Verde descentralizado em regiões, com uma soberania partilhada, uma opinião pública independente, um país forte (a Alemanha, por exemplo, demonstra ser possível um Estado forte com Landers - regiões - fortes) de cidadãos e muito poucos carneiros, um Cabo Verde pós-centralismo do poder, mais revitalizado e apto para executar iniciativas a bem de toda a comunidade.

Cabo Verde tem necessidade de promover os seus valores sociais, históricos, ecológicos, políticos, e de proteger e valorizar a sua diáspora deixada, ingrata e inexplicavelmente, por conta, quando há mais patrícios vivendo fora do país e a ajudar os de casa de mil e uma maneiras. Livrar-se, de uma vez por todas, dos seus pequenos demónios nacionalistas que povoam a cabeça de certos africanófilos exclusivistas quando, em verdade, somos um povo caldeado na mistura de raças e culturas, a qual nos confere a nossa singularidade. A auto-estima do cabo-verdiano deve centrar-se na sua condição de mestiços, sem menosprezo dos outros, que, inclusive, constam do seu património genético.

Infelizmente, o mal da política é, geralmente, os políticos nunca darem os passos necessários, a menos que se vejam num beco sem saída, depois de terem perdido as melhores ocasiões e desbaratado, ingloriamente, enormes recursos.

Parede, Março de 2013                                Arsénio Fermino de Pina

                                               (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

 

 

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